A floresta precisa de séculos. A soja, apenas uma safra: o conflito entre os ciclos da natureza e a expansão do agronegócio na Amazônia
Pesquisa sobre o Planalto Santareno revela como a expansão das monoculturas, a perda de biodiversidade e os conflitos fundiários comprometem a regeneração dos ecossistemas e a sobrevivência de comunidades tradicionais...

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Pesquisa sobre o Planalto Santareno revela como a expansão das monoculturas, a perda de biodiversidade e os conflitos fundiários comprometem a regeneração dos ecossistemas e a sobrevivência de comunidades tradicionais; estudos citados indicam que a recuperação de componentes fundamentais da floresta pode ultrapassar 120 anos.
Por trás das extensas plantações de soja que avançam sobre o oeste do Pará existe um conflito que ultrapassa a disputa pelo uso da terra. De um lado, um sistema agrícola organizado pela velocidade das safras, pela produtividade e pela rentabilidade. De outro, ecossistemas cuja capacidade de regeneração depende de processos biológicos que podem levar décadas ou séculos. É essa incompatibilidade temporal que está no centro de uma investigação sobre os efeitos da expansão do agronegócio no Planalto Santareno, na Amazônia brasileira.
Publicado em outubro de 2026, o estudo do cientista brasileiro Isaias da Silva Pereira examina as transformações socioambientais ocorridas entre 1994 e 2025 nos municípios de Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos, no oeste paraense. A pesquisa sustenta que a expansão da agricultura empresarial, particularmente da sucessão de cultivos de soja e milho, não representa apenas uma mudança na paisagem produtiva: ela compromete mecanismos ecológicos fundamentais para a manutenção da fertilidade dos solos, a reprodução da biodiversidade e a continuidade das agriculturas tradicionais.
A principal contribuição do trabalho está em relacionar processos frequentemente analisados de maneira isolada — desmatamento, contaminação por agrotóxicos, perda de polinizadores, concentração fundiária e enfraquecimento da agricultura familiar — como dimensões interdependentes de uma mesma transformação territorial.
Uma investigação construída a partir de evidências
Para compreender esse processo, Pereira adotou uma metodologia qualitativa, de caráter analítico-crítico, fundamentada em pesquisa bibliográfica e documental. Em vez de realizar experimentos de campo ou produzir uma nova série de medições ambientais, o pesquisador reuniu estudos científicos, documentos institucionais, registros históricos e investigações sobre conflitos territoriais e impactos sanitários.
As informações foram organizadas em quatro eixos: ciclicidade ecológica e agricultura tradicional; expansão territorial do agronegócio; destruição socioambiental e comprometimento das condições de vida; e limites da regeneração dos ecossistemas.
Essa estratégia permitiu confrontar evidências produzidas em diferentes escalas e períodos, articulando conhecimentos da ecologia de ecossistemas, da agrobiodiversidade amazônica e dos estudos sobre extrativismo agrário.
A distinção metodológica é importante: os números apresentados não constituem resultados de um único experimento conduzido pelo autor, mas indicadores provenientes de pesquisas anteriores, documentos e levantamentos reunidos e reinterpretados pelo estudo.
O que os números revelam sobre a transformação da paisagem
Um dos indicadores mais expressivos da expansão agrícola é o crescimento da área destinada à soja. Segundo levantamento citado por Pereira, a superfície cultivada nos municípios de Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos alcançou aproximadamente 55 mil hectares em 2017, aumento de 31% em relação ao ano anterior.
Outro dado dimensiona a transformação da cobertura vegetal: aproximadamente 25 mil hectares de formações florestais foram convertidos em lavouras de soja entre 2000 e 2021 no Planalto Santareno, conforme dados do MapBiomas sintetizados pela Agência Pública.
A dimensão ecológica da perda, entretanto, não pode ser avaliada apenas pela área desmatada. Uma pesquisa publicada na revista Nature, em 2016, por Barlow e colaboradores, analisou 36 microbacias hidrográficas em Santarém e Paragominas e identificou que uma redução de apenas 20% da floresta primária esteve associada a perdas de 39% a 54% do valor de conservação.
O resultado revela uma característica frequentemente subestimada da degradação amazônica: a floresta pode continuar aparecendo nos mapas, mas perder progressivamente sua integridade biológica. Fragmentação, exploração madeireira e incêndios comprometem espécies e relações ecológicas mesmo onde a cobertura vegetal ainda permanece.
O tempo que a agricultura industrial não consegue esperar
A diferença entre os sistemas agrícolas aparece com especial clareza quando se observa o funcionamento dos ciclos naturais.
Nas agriculturas tradicionais amazônicas, o cultivo é frequentemente combinado com períodos de pousio, nos quais a vegetação secundária se desenvolve, a matéria orgânica retorna ao solo e os processos biológicos contribuem para a recuperação das condições produtivas.
No Planalto Santareno, registros de práticas camponesas descrevem parcelas cultivadas durante aproximadamente dois anos, seguidas por cerca de dez anos de pousio. A alternância não representa abandono da terra, mas uma etapa fundamental do sistema produtivo.
A substituição desse modelo por sucessivas safras mecanizadas reduz os intervalos de regeneração e simplifica a paisagem. A consequência é uma crescente dificuldade de recomposição dos processos que sustentam a fertilidade e a diversidade biológica.
A dimensão temporal desse problema encontra respaldo em uma das pesquisas mais relevantes da literatura recente sobre restauração tropical. Publicado em Science, em 2021, o trabalho de Poorter e colaboradores analisou 77 cronossequências de florestas tropicais e demonstrou que diferentes componentes dos ecossistemas se recuperam em velocidades muito distintas.
A estrutura física e a diversidade de espécies podem alcançar 90% dos valores de referência em aproximadamente 25 a 60 anos. Para a recuperação de atributos como o estoque de biomassa e a composição de espécies, entretanto, o período pode ultrapassar 120 anos.
Isso significa que o retorno da vegetação visível não equivale à recuperação integral da floresta. Uma paisagem novamente verde pode continuar biologicamente empobrecida, com relações ecológicas e funções ambientais ainda comprometidas.
Abelhas, água e saúde: os efeitos que ultrapassam as lavouras
A perda de biodiversidade aparece também na redução de polinizadores. Depoimentos reunidos por Barbosa, em 2018, registraram situações críticas entre meliponicultores de Belterra: produtores que mantinham mais de uma centena de colônias passaram a contar com apenas dez ou vinte caixas ativas.
A combinação entre desmatamento e exposição a agrotóxicos ameaça não apenas a produção de mel, mas também a reprodução de plantas cultivadas e espécies nativas. Abelhas participam de processos essenciais à manutenção da variabilidade genética e da produção de frutos.

Os efeitos alcançam igualmente os recursos hídricos. Estudos citados no artigo descrevem a possibilidade de contaminação de igarapés, poços e aquíferos por escoamento superficial, percolação e lixiviação de substâncias utilizadas nas lavouras. Comunidades rurais relatam episódios de irritação cutânea, prejuízos às plantações de subsistência e dificuldades de acesso à água segura.
Na dimensão sanitária, um dado chama particular atenção: a Agência Pública divulgou, em 2023, aumento de 667% nos registros de agravos neurológicos monitorados na região, relacionando o fenômeno à discussão sobre exposição a agrotóxicos.
É necessário, contudo, interpretar esse número com cautela. A variação dos registros não demonstra, isoladamente, que os produtos químicos tenham causado todos os casos. Para estabelecer relações causais seriam necessários estudos epidemiológicos específicos, com avaliação individual da exposição, comparação entre populações e controle de outros fatores de risco.
A investigação também recupera a dimensão territorial da exposição. Em agosto de 2025, o Ministério Público Federal acionou a Justiça para exigir medidas emergenciais de proteção contra agrotóxicos na região. Um laudo da Polícia Federal citado pelo órgão identificou lavouras a apenas seis metros de moradias na aldeia Açaizal, sem barreiras de proteção.
O que ainda não sabemos
Apesar da amplitude das evidências reunidas, a pesquisa possui limitações importantes. Por ser bibliográfica e documental, não apresenta monitoramento ambiental próprio, medições sistemáticas de resíduos químicos na água e no solo ou acompanhamento longitudinal de populações expostas.
Também não estabelece, por meio de experimentos ou modelos causais próprios, a contribuição isolada de cada fator para a perda de biodiversidade e os problemas de saúde identificados.
Outra questão permanece aberta: qual é a extensão efetiva da perda funcional dos ecossistemas nas áreas convertidas em monoculturas? A resposta exige séries históricas de biodiversidade, análises de polinizadores, avaliações da qualidade da água e investigações sobre a recuperação dos solos.
Essas lacunas não anulam a relevância do trabalho. Delimitam, antes, uma agenda de investigação científica que precisa avançar para produzir diagnósticos mais precisos e orientar intervenções públicas.
O que pode mudar a partir desses resultados
A pesquisa recoloca uma questão central para o futuro da Amazônia: não basta medir quanto se produz ou quanto resta de floresta. É necessário avaliar se os processos ecológicos que sustentam a vida continuam funcionando e se as populações historicamente responsáveis pelo manejo desses territórios conseguem permanecer neles.
As evidências apontam para a necessidade de proteger remanescentes florestais, restaurar áreas degradadas, preservar corredores ecológicos, monitorar a contaminação por agrotóxicos e fortalecer sistemas agroflorestais e práticas tradicionais de cultivo.
Também colocam a regularização fundiária e a proteção dos territórios indígenas, quilombolas e camponeses no centro da política ambiental. Sem segurança territorial, o pousio perde espaço, a transmissão de conhecimentos tradicionais se interrompe e a restauração ecológica deixa de encontrar as condições sociais necessárias para prosperar.
O argumento mais contundente do estudo é também seu principal alerta: a natureza não opera segundo o calendário financeiro das commodities. Enquanto uma nova safra pode ser implantada em poucos meses, a reconstrução de uma floresta biologicamente complexa pode exigir gerações.
A Amazônia, portanto, enfrenta algo mais profundo do que uma disputa entre diferentes modelos de produção. Está em jogo a possibilidade de manter os ciclos que tornam a própria produção agrícola sustentável. E, quando esses ciclos são interrompidos, o custo não desaparece: permanece nos solos, nas águas, na biodiversidade e na vida das populações que dependem da floresta.
Referência
A CICLICIDADE DA NATUREZA E AS AGRICULTURAS TRADICIONAIS FRENTE À DESTRUIÇÃO SOCIOAMBIENTAL PROVOCADA PELA EXPANSÃO DO AGRONEGÓCIO NO PLANALTO SANTARENO. Isaias da Silva Pereira. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, 2026.
doi.org/10.51891/rease.v12i10.31368